Atravessadores do pescado levam fome à mesa dos paraenses

Fotos: MDutra

A Amazônia tem três importantes entrepostos pesqueiros: dois no Pará, Vigia e Santarém, e um no Amazonas, Tabatinga. Tanto peixe em nada influi nos preços do pescado nos mercados e feiras paraenses. Além da crescente exportação para os restaurantes de Fortaleza, Brasília e São Paulo, o pescado paraense faz a festa dos atravessadores. No Vero-o-Peso, principal mercado de Belém, um talhador me disse que o pescado proveniente do Lago de Tucuruí pode ter, entre o pescador e o vendedor na feira, três outros agentes, os atravessadores, que não pescam nem atendem aos consumidores, apenas lucram fortunas com a comida que falta em milhões de bocas desta região tida e havida como rica em pescado.

Pouco antes da Semana Santa do ano passado um jornal de Cuiabá, MT, bradava contra o elevado preço do tambaqui, que estava a 6 reais o quilo. Na mesma época, em Santarém, de reconhecida abundância dessa espécie, o quilo estava justamente o dobro. No sábado passado o tambaqui, na mesma cidade, variava entre 10 e 12 reais. O tucunaré, no Mercadão 2000, estava entre 12 e 16 reais. O apapá (espécie de sarda grande e escamas douradas que dá no Baixo Amazonas) estava a 15 reais. E o pirarucu (em defeso!)estava simplesmente a 21 reais.
O tucunaré, que em Belém custa, nos supermercados, em torno de 20 reais,
era vendido no fim de semana passado a 16 reais nos mercados de Santarém
O surubim, peixe dos mais populares, quase não chega mais às mesas dos mais
pobres. Virou comida de rico, como o tucunaré e o pirarucu.

O que chama a atenção é a completa passividade das "autoridades" do Estado e dos municípios diante da sanha dos atravessadores. Nessa cadeia de exploração, quem paga são os pescadores e os consumidores. O pescador, sem estrutura para levar o produto às feiras e mercados, entrega o peixe ao primeiro atravessador que aparece na beira do rio ou mesmo lá no meio do rio, antes que o pescador chegue à praia.

Sem outra alternativa, o consumidor ou compra as melhores espécies caríssimas ou contenta-se com os cangatás e as cangoias. Talvez não por acaso a cidade de Belém, por exmplo, consome pouco pescado. Uma pesquisa (não atrualizada) de anos atrás, indicava que o belenense consumia apenas entre 18 e 20 quilos de pescado por pessoa/ano. O que daria algo como 180 gramas por pessoa/dia. Isso numa terra de mil rios e lagos ricos de variadas espécies.
Nunca se ouviu um deputado estadual bradar contra essa forma de perversa exploração, esse contraste da existência de fome, causada pela carestia do alimento básico, numa região na qual os cientistas já identificaram duas mil espécies de pescado. Nem deputados nem qualquer outra "autoridade". 
Preservar a Amazônia! Preservar também a fome e a ganância dos atravessadores impunes?
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